Privação Cultural

Desde Vygotsky, um dos mais importantes pensadores educacionais, falecido precocemente em 1934, sabe-se que ensinar não constitui processo simples de adicionar conhecimentos ou habilidades ao anteriormente sabido por uma pessoa, mas sim um processo de desenvolvimento das habilidades mentais, em grau crescente de complexidade, que permita entender melhor o mundo em que se vive, e conviver mais facilmente com os demais.

Toda aprendizagem transforma o ser humano, fornecendo novas perspectivas, e permitindo apreensão de novos conhecimentos, de tal forma que quanto mais aprendemos, mais estamos aptos a captar novas informações, dominar novas tecnologias.

No entanto, ao início do processo, precisamos de outro ser humano, que nos permita desenvolvimento e interação de forma independente com o mundo interno e mundo externo, que estabeleça conosco relação através da qual possamos desenvolver habilidades e aprender.

Para Vygotsky, somos essencialmente membros de um específico grupo sociocultural, apropriando-nos das ferramentas de aprendizagem características da comunidade em que convivemos; e o que denominados Educação, em sentido amplo, é o processo pelo qual assimilamos uma versão individualizada da cultura deste grupo, como vamos internalizando, controlando e organizando as funções inatas de memória, atenção, comunicação, percepção e resolução de problemas. É exatamente nesta característica que nos distinguimos dos animais, já que estes trazem impressas suas características vitais indispensáveis à sobrevivência, enquanto nós necessitamos do elo social para a transmissão da cultura, que garanta a aprendizagem individual para o desenvolvimento.

Quando alfabetizamos uma criança, não estamos apenas fazendo com que seu cérebro “aprenda” a trabalhar com os signos de um idioma, realize associações entre sons e significados, mas também, por meio dos textos selecionados, transmitindo a cultura, os modos de fazer e de pensar do povo que utiliza esta linguagem. Assim, o material que utilizamos no processo de letramento pode ser considerado como uma coletânea das experiências humanas, condensadas e adaptadas às várias faixas etárias.

Educação escolar se diferencia da caseira – realizada por familiares e círculo mais próximo – por utilizar preceitos científicos e materiais preparados para a compreensão estruturada e tecnológica da época em que se vive, enquanto atitudes, comportamentos, valores, estão mais afetos ao meio social de convivência diária.

Domínio de ambas é indispensável, e é desta prática cultural que formulamos conceitos históricos, físicos, biológicos, que transmitimos às novas gerações aquilo que consideramos o “estado-da-arte” em termos de sabedoria e bem viver.

Crianças longe da escola, ou em famílias desestruturadas, submetidas à violência, em situações de desnutrição, com pouca possibilidade de operar mentalmente sobre os objetos da realidade, costumam apresentar estrutura cognitiva menos flexível, menor capacidade de aprendizagem, e são definidas por muitos estudiosos educacionais como em estado de Privação Cultural, que se caracteriza pela dificuldade ou mesmo impossibilidade de acesso aos bens culturais. Tal condição é forte fator impeditivo à aprendizagem, somando-se às possíveis más condições iniciais de cognição da criança; sua persistência durante infância e juventude reduz as chances do indivíduo de melhorar suas possibilidades materiais e mesmo de inclusão social.

Educadores tem à frente o enorme desafio de mudar a realidade dessas pessoas, de dar-lhes condições de superar a “rigidez” imanente ao seu processo de aprendizagem. Vencer tal desafio será proporcionar a toda pessoa considerada à margem do sistema educativo uma nova forma de organizar sua realidade, superar dificuldades, readequar sua afetividade e adaptar-se ao mundo do trabalho.

 

Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil.

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