A todos os mestres, com carinho

“_Menino, quem foi seu mestre? _Meu mestre foi Salomão, a ele tenho respeito, dever e gratidão…”. O trecho do canto de capoeira expressa, de modo poético, uma relação aluno-professor; como ocorre quando o ensinamento é valorizado por aquele que o recebe.
Da complexidade do letramento à de um pós-doutorado, a figura do mestre que orienta e inspira é importante, essencial. Reconhecido com glórias acadêmicas, com uma flor retirada de um jardim, ou até mesmo não reconhecido, o valor do professor é imenso, sem ele não haveria civilização; é necessário alguém com paciência, empenho e solidariedade disposto a dividir sua ciência, trabalhar com a gestão do conhecimento, com a possibilidade de afloramento ou expansão das potencialidades do outro, do mais carente, do mais necessitado de conhecimentos técnicos específicos ou de noções de convivência social e profissional.
Um mestre ensina bem mais que apenas sua matéria; ensina também uma forma de resolver problemas, uma maneira de relacionar-se com o mundo, uma regra de convivência com os demais. Seja na formalidade das disciplinas, ou na informalidade do relacionamento interpessoal, seu exemplo de condução dos afazeres diários instrui bem mais que imaginamos num primeiro momento, pois transmite as normas comportamentais e cognitivas de toda a comunidade.
Aprender é resultado de mudança, e pode ocorrer na alteração da capacidade motora, quando treinamos fisicamente algumas atividades; na capacidade intelectual, quando estudamos profundamente algum assunto; mas também na dimensão afetiva, ou seja, fora das ações formais da aprendizagem. Aprende-se por imitação, por admiração; o docente, ao lado dos pais, exerce papel fundamental, constituindo modelo de procedimento que norteará a vida dos educandos.
Arquimedes de Siracusa, no século III a.C. afirmou: “Dê-me uma alavanca e um ponto de apoio e moverei o mundo”. A Educação é uma alavanca capaz de mover o mundo, mas é necessário ter em mente que o ponto de apoio não é a própria alavanca. O ponto de apoio é sempre algo que, parte indispensável do sistema, está fora dele, fora de cada um de nós mesmos; é a sociedade, referência externa, sem a qual tornamo-nos autorreferentes, e perdemos contato com a realidade. É preciso educar para a liberdade, para o esforço intelectual, para a responsabilidade, orientando para a cidadania. Este é o verdadeiro ofício do professor.
O mundo mudou, de tão repetida esta afirmação parece meio gasta mas reflete um fato inegável: desde as últimas décadas do século passado, com aceleração extrema no terceiro milênio, a evolução tecnológica modificou sensivelmente os modos de comunicação, de relacionamentos, de lazer e, talvez revolucionariamente, de conhecimento. A produção e o trabalho apresentam grandes desafios, requerem constante criatividade e a Educação está, ou deveria estar, na vanguarda do enfrentamento desta questão.
O magistério é uma profissão paradoxal, pois sua maior competência é tornar indivíduos, comunidades, grupos, mais competentes e capazes de sobreviver com êxito em um mundo complexo e competitivo. Ou seja, um professor é tão mais talentoso quanto mais consiga desenvolver o talento alheio, e ao mesmo tempo em que procura o acréscimo de tecnologia e avanço social, cabendo a este profissional também combater seus excessos, como o consumismo desenfreado, a exclusão daqueles menos favorecidos economicamente e a perda do senso comunitário, normalmente associado aos desníveis sociais profundos.
Um bom professor transforma a escola num efetivo ambiente de formação e aquisição de conhecimentos, com partilha de ideias e interesses, propiciando a inovação, uma real compreensão da ética e uma vida pessoal mais plena.

Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil.

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