À espera de um milagre

Nossos ancestrais pré-históricos provavelmente entravam em pânico durante grandes tempestades, terremotos, enchentes, doenças, e outros fenômenos que não cabiam em sua lógica; com o início de algum processo racional procuraram decifrar os acontecimentos e até ter sobre eles algum controle, nascendo daí a religião como mediação entre o humano e o divino, na tentativa de aplacar as entidades que produziam o raio e o trovão, que podiam mandar caça abundante e boas colheitas ou secas catastróficas e fome.
Com a evolução do pensamento e das sociedades, as religiões assumiram aspectos mais complexos em várias vertentes: a mística, que busca o contato espiritual com a divindade; a ética, que estabelece normas de comportamento, e várias outras além da utilitária que desde sempre perpassou as relações dos homens entre si e com suas comunidades. Isto leva muitas vezes ao pensamento mágico, segundo o qual podemos controlar o universo através de determinadas ações: sempre se tentou negociar bênçãos, graças, favores, em troca de sacrifícios, orações, ofertas, novenas, procissões; muitas vezes em busca de algo positivo como cura, emprego, orientação.
Ao contrário do que afirmam manuais de autoajuda e bruxarias várias, a obtenção de sucesso em qualquer área está diretamente relacionada ao esforço, ao trabalho, ao estudo, à determinação, o universo não “conspira” para a realização de anseios, mas infelizmente o desejo de um milagre parece dominar corações e mentes, é surpreendente o número de pessoas que acredita poder atingir seus objetivos através do simples enunciado do que espera que ocorra.
O Brasil foi colonizado por portugueses imbuídos da missão de levar fé e culto católico a novas terras, e seu primeiro nome, não por coincidência “Ilha de Vera Cruz”, já manifestava o caráter religioso da empreitada. Caracterizado como de forte apego aos santos e ênfase nas procissões religiosas e missas, mais voltado às imagens de santos do que aos seus exemplos espirituais, com código de conduta repleto de normas, de possibilidades de heresias e paganismos, tinha na cruz seu elemento constante, onipresente em igrejas, ruas, sepulturas, igrejas, em vestes pessoais e ourivesaria, manifestando a completa tensão entre “o uno e o múltiplo, o transitório e o vivido”, conforme já expresso magistralmente pelo pesquisador italiano Carlo Ginzburg, para o qual a confusa relação entre crenças populares e a religião oficial, que ainda afeta a compreensão das oposições assimétricas: “indivíduos cultos/ camponeses; latim/ línguas vulgares; pintura/ escultura; Cristo/ santos; religião/ superstição”, “cultural/ social, cultura escrita/ imagens” marca toda nossa civilização.
É preciso lembrar também a herança, devida aos jesuítas, do catequizar e desbravar, verdadeiras operações de guerra celebradas em santos guerreiros como São Sebastião no Rio de Janeiro ou Santo Antônio em Pernambuco, a integração de escravos e comunidade, dentro da mais estrita obediência, na estrutura de poder vigente nas plantações e usinas da cana de açúcar; o catolicismo praticado por colonos, escravos e indígenas que foi adquirindo significados variáveis em função da multiplicidade de etnias, valores e costumes, com o sincretismo produzindo novas configurações e ganhando dinamismo nos levaram a uma sociedade onde a mística religiosa sempre teve destaque.
A teatralidade brasileira, o número excessivo de igrejas e capelas competindo em luxo e originalidade, um culto mais íntimo e pessoal aos santos, compõe um mosaico em que compreendemos com facilidade a recente pesquisa em que é atribuída à fé religiosa, e não ao estudo, a maior perspectiva de melhoria de vida.

Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil.

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