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Pesticidas causam impacto na fronteira agrícola da Amazônia
19/06/2013
Por Elton Alisson
Agência FAPESP – Os pequenos produtores estabelecidos na fronteira agrícola amazônica brasileira estão utilizando pesticidas em doses maiores, com maior frequência do que as recomendações agronômicas e, em alguns casos, de maneira inadequada para as pragas que pretendem controlar. Já os grandes produtores de soja e cana-de-açúcar da região seguem mais as recomendações agronômicas e até mesmo substituem compostos mais tóxicos para a saúde humana por outros menos danosos.
O balanço entre esses distintos padrões de uso parece ser negativo: uma pesquisa indica que os riscos de impactos de pesticidas sobre espécies aquáticas, como os peixes, aumentou significativamente. Isso porque, com a intensificação da agricultura na fronteira agrícola amazônica, elas estão sendo aplicadas em doses maiores e, apesar de serem menos tóxicas para os humanos e outras espécies de mamíferos, podem ser mais maléficas para organismos menores.
O trabalho foi feito por pesquisadores da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da Universidade de São Paulo (USP), em colaboração com colegas do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), do Departamento de Ciências Biomédicas da Universidade de Medicina Veterinária de Viena, na Áustria, e do Instituto Alterra, da Holanda.
Os resultados da pesquisa, desenvolvida no âmbito de um projeto com apoio da FAPESP, foram publicados em um volume temático especial sobre a fronteira agrícola amazônica publicado pelaPhilosophical Transactions of The Royal Society.
“Observamos que os pequenos produtores na fronteira agrícola amazônica fazem uso grosseiro e descontrolado de pesticidas e, apesar de alguns grandes produtores da região seguirem as recomendações técnicas e terem substituído voluntariamente defensivos tóxicos por outros menos danosos, a ‘pegada ecológica’ desses compostos aumentou ao longo do tempo”, disse Luís César Schiesari, professor da EACH e primeiro autor do estudo, à Agência FAPESP, referindo-se ao impacto ecológico do uso inadequado de pesticida.
Os pesquisadores analisaram os padrões de uso de pesticidas por produtores de diferentes perfis na fronteira agrícola amazônica e os potenciais riscos de seu uso sobre a biodiversidade da região.
Para isso, realizaram, a partir de 2005, entrevistas com 220 pequenos produtores de frutas e verduras de quatro cidades na região central da Amazônia, na várzea do rio Solimões, e com administradores de uma fazenda de cultivo de soja de 80 mil hectares, localizada no Mato Grosso, na borda da Amazônia, e de outra propriedade, com 60 mil hectares, em processo de conversão para plantio de cana-de-açúcar, situada na região do rio Negro.
Os dados de aplicação de pesticidas, fornecidos pelos próprios produtores, revelaram que 96% dos pequenos agricultores aplicam as substâncias em suas lavouras em dose e frequência maiores do que a recomendação técnica.
Já os grandes produtores seguem mais de perto as recomendações técnicas e até mesmo diminuíram o uso de compostos mais danosos à saúde humana e ao meio ambiente, conforme a classificação de risco toxicológico e ambiental adotada pelos Ministérios da Saúde e do Meio Ambiente.
Por outro lado, aumentaram o arsenal e a dose de pesticidas utilizados – o que elevou os riscos de danos a espécies de animais, conforme os pesquisadores observaram por meio de uma série de cálculos feitos para medir o impacto do uso inadequado dos pesticidas na biodiversidade da região.
“Constatamos que o aumento da dose e da diversidade de pesticidas utilizados pelos grandes produtores causou uma queda no risco para os mamíferos que habitam esses ambientes”, contou Schiesari.
“Em contrapartida, o risco para os organismos aquáticos aumentou até 135 vezes, conforme verificamos por meio de cálculos baseados em dados de toxicidade dos pesticidas utilizados para algas, peixes e zooplâncton [animais microscópicos que vivem em suspensão no ambiente aquático]”, afirmou.
De acordo com Schiesari, uma das explicações para essa diferença é que a categorização desses compostos segundo seus possíveis impactos à saúde humana é feita utilizando como modelo ratos de laboratório. Dessa forma, o sistema de classificação de riscos só é válido para os mamíferos.
“O risco de toxicidade apresentado por um determinado pesticida, no entanto, pode variar muito de um organismo para outro. Um composto menos danoso para ratos não apresenta, necessariamente, menor risco para peixes, aves e insetos”, comparou.
Áreas mais suscetíveis
Segundo Schiesari, as fronteiras agrícolas (regiões de conversão de habitats naturais para a agricultura) são as áreas mais suscetíveis aos impactos ambientais. Isso porque, como estão concentradas hoje em florestas tropicais – caracterizadas por grande biodiversidade –, são ambientes onde há um número maior de espécies que até então não tinham sido expostas aos riscos de práticas de manejo da terra potencialmente danosas, como o uso indiscriminado de pesticidas. São, portanto, espécies mais vulneráveis à contaminação ambiental, por exemplo.
“Em paisagens agrícolas tradicionais, muitas espécies já foram perdidas e as remanescentes podem apresentar algum nível de evolução de tolerância à contaminação ambiental não só por pesticidas, mas também por metais pesados”, disse Schiesari. “No caso das fronteiras agrícolas isso não acontece, porque há fauna e flora mais diversa, sem contato prévio com práticas agrícolas danosas.”
Os pesquisadores defendem que as fronteiras agrícolas recebam uma atenção maior de ações voltadas a promover práticas de manejo mais sustentáveis, como a regulamentação e o controle do uso de substâncias.
Reconhecidos como ferramentas importantes para a agricultura, por possibilitarem o aumento da produtividade agrícola, os pesticidas são formulados para terem efeito biológico sobre pragas agrícolas, mas podem causar danos a outras espécies, agindo sobre mecanismos fisiológicos basais e comuns a diversos organismos, conta Schiesari.
“Muitos pesticidas têm mecanismos de ação que consistem em agir sobre processos fisiológicos comuns a um vasto número de organismos – na respiração celular, transmissão de impulsos neuronais ou formação de fusos que separam os cromossomos na divisão celular, por exemplo. Dessa forma, podem ter impactos sobre diversos organismos sem nenhuma relação com a praga que o defensivo pretende controlar”, disse.
O pesquisador avalia que a minimização do risco de contaminação ambiental por pesticidas só pode ser efetivamente feita com o envolvimento de múltiplos atores, como organizações governamentais e ambientais, entre outras.
“É preciso uma regulamentação mais adequada, que leve em consideração particularidades de regiões tropicais megadiversas e, ao mesmo tempo, maior rigor no controle de uso dos pesticidas”, afirmou Schiesari.
“Os produtores têm que ter amplo acesso à educação e aos serviços de extensão rural e serem recompensados pelo governo ou pelo mercado por adotarem de forma voluntária de melhores práticas agrícolas”, disse.
“Há espaço para melhora no uso de pesticidas tanto entre os pequenos agricultores, cuja produção é familiar e voltada para abastecer a demanda por alimentos de Manaus, quanto entre os grandes produtores que, mesmo adotando práticas que não só atendem, mas até ultrapassam a legislação, ainda que possivelmente movidos por interesses econômicos, causam impactos substanciais pela escala e intensidade de produção”, avaliou Schiesari.
O artigo Pesticide use and biodiversity conservation in the Amazonian agricultural frontier (doi: 10.1098/rstb.2012.0378), de Schiesari e outros, pode ser lido na Philosophical Transactions of The Royal Society emrstb.royalsocietypublishing.org/content/368/1619/20120378.short?cited-by=yes&legid=royptb;368/1619/20120378.
fonte:Agência Fapesp
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Estudo cria modelo animal de autismo
18/06/2013
Por Karina Toledo
Agência FAPESP – Ao infectar ratas grávidas com uma parte da bactéria Escherichia coli, cientistas da Universidade de São Paulo (USP) conseguiram induzir na prole um quadro semelhante ao autismo, criando um modelo animal da doença que poderá ser útil em diversas pesquisas.
O trabalho – um dos vencedores da última edição do Prêmio Tese Destaque USP – começou ainda durante o mestrado de Thiago Berti Kirsten e foi concluído em seu doutorado, ambos com Bolsa da FAPESP.
“Nossa maior contribuição foi mostrar que, além dos já bem estabelecidos fatores genéticos, infecções durante a gestação também são importantes na etiologia das doenças mentais. Nossos achados indicam que uma infecção bacteriana aproximadamente no meio da gestação induziria alterações comportamentais similares às do autismo, com prejuízos na comunicação, socialização e inflexibilidade cognitiva”, disse Kirsten.
O experimento consistiu em injetar uma toxina extraída da membrana da bactéria E. coli chamada lipopolissacarídeo (LPS) em ratas no nono dia e meio de gestação. Segundo Martha Bernardi, pesquisadora da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP e orientadora do estudo, isso seria o equivalente a uma mulher contrair uma intoxicação alimentar pela bactéria por volta do quarto mês de gravidez.
As ratas apresentaram um discreto e passageiro quadro de comportamento doentio após a contaminação, mas logo voltaram ao estado normal e cuidaram de forma adequada dos filhotes. Na prole, por outro lado, os efeitos foram maiores e duradouros.
“Após o parto, deixamos com as ratas oito filhotes: quatro fêmeas e quatro machos. Todas as fêmeas apresentaram comportamento normal. Os machos, por outro lado, mostraram menor preferência pelo odor da mãe, indicando menor reconhecimento materno, e redução na socialização por meio de brincadeiras. Como o autismo é bem mais comum em homens do que em mulheres – em uma proporção de quatro para um –, a diferença observada entre machos e fêmeas é uma evidência forte de que conseguimos criar um modelo da doença”, avaliou Bernardi.
Os resultados sobre a capacidade reduzida de socialização foram publicados na revistaNeuroImunoModulation. Já os dados sobre a dificuldade de reconhecer a mãe pelo olfato foram divulgados na Physiology & Behavior.
Ao estudar o cérebro dos filhotes afetados, ainda durante o mestrado, Kirsten observou que a produção de dopamina – neurotransmissor envolvido no controle de movimentos, aprendizado, humor, emoções, cognição, sono e memória – estava diminuída. Os resultados foram publicados no Journal of Neuroscience Research.
Segundo Bernardi, estudos anteriores haviam relacionado o autismo apenas à deficiência de serotonina. “Fomos os primeiros a relacionar a condição a uma hipofunção dopaminérgica. Mas vale ressaltar que estudamos apenas uma das formas de autismo, a induzida por inflamação. Essa síndrome, no entanto, é multifatorial, pode ter causas genéticas, medicamentos e outros fatores envolvidos”, disse.
Durante o doutorado, Kirsten estudou os receptores de dopamina no cérebro dos ratos e observou que estavam inalterados. Descobriu, por outro lado, que a enzima necessária para a produção de dopamina – a tirosina hidroxilase – estava diminuída. Ao investigar os demais neurotransmissores não encontrou alterações relevantes.
“Acreditamos que a toxina da bactéria tenha induzido no corpo da rata prenhe a liberação de citocinas inflamatórias que causaram uma lesão funcional no cérebro dos filhotes. O tecido cerebral e as células gliais da prole, no entanto, estavam normais”, disse Bernardi.
Também durante o doutorado, com a ajuda de um aparelho capaz de capturar ultrassons, Kirsten mostrou que os bebês machos apresentavam problemas de comunicação. “Quando tiramos a mãe de perto dos filhotes, normalmente eles começam a gritar para que ela volte. Mas nos machos essa comunicação estava diminuída. Além disso, eles apresentavam um comportamento repetitivo típico do autismo”, contou Bernardi.
Segundo Bernardi, já há outros grupos usando o modelo animal desenvolvido por Kirsten para investigar, por exemplo, a percepção de dor no autismo. “Não se sabe ao certo se pacientes com a doença sentem menos dor que o normal ou apenas expressam menos a dor”, afirmou Bernardi.
Para Kirsten, o modelo é interessante para a comunidade científica por ser facilmente replicado e por reproduzir com fidelidade vários aspectos do autismo.
“O próximo passo é realizar intervenções nos filhotes após a doença materna, ainda na gestação, com substâncias que interfiram nos seus sistemas imunes ou revertam os danos neurológicos. Esperamos encontrar ideias que encorajem futuras intervenções em humanos, para tentar amenizar ou mesmo reverter os prejuízos trazidos pelo autismo”, disse Kirsten, que realiza no momento pós-doutorado com apoio da FAPESP e supervisão do professor Luciano Freitas Felício, da FMVZ-USP.
Prêmio Tese Destaque USP
Criado para estimular atividades de pesquisa entre alunos e professores da pós-graduação, o Prêmio Tese Destaque USP contemplou em 2013 trabalhos de doutorado em nove áreas do conhecimento. O autor do melhor trabalho em cada área receberá R$ 15 mil e seus orientadores, R$ 10 mil. Os trabalhos agraciados com menções honrosas receberão R$ 5 mil cada.
Várias das teses premiadas contaram com apoio da FAPESP:
Ciências Biológicas
Ciências Exatas e da Terra
Ciências da Saúde
Engenharias
Menções honrosas: “Fibrocimentos com gradação funcional”, de Cleber Marcos Ribeiro Dias, e “Análise de séries temporais aeroelásticas não lineares: um estudo experimental”, de Rui Marcos Grombone de Vasconcellos.
fonte:Agência Fapesp
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Nikkeis tornam-se menos atraentes para o Japão, diz professor
17/06/2013
Por Elton Alisson
Agência FAPESP – Houve uma mudança nos últimos anos na forma como os nikkeis (descendentes de japoneses) brasileiros percebem-se e são percebidos naquele país. Políticas recentes para estimular o retorno da mão de obra estrangeira a seus países de origem são um dos sinais de que o tratamento dispensado à comunidade nipo-brasileira pelo governo tornou-se mais duro.
Atraídos no início da década de 1990 por uma modificação na Lei de Imigração japonesa, os brasileiros começaram a se estabelecer a partir dessa época no país e se tornaram o terceiro maior grupo étnico na nação asiática – atrás apenas dos coreanos e chineses.
“Há uma distância importante entre a mudança de autopercepção do nikkei brasileiro no Japão e a forma como a sociedade japonesa enxerga a presença dele no país, que quase não mudou durante duas décadas de convívio”, disse Angelo Ishi, professor da Faculdade de Sociologia da Universidade Musashi, em Tóquio, à Agência FAPESP.
Ishi foi um dos conferencistas no Simpósio Japão-Brasil sobre Colaboração Científica, realizado pela FAPESP e pela Sociedade Japonesa para a Promoção da Ciência (JSPS) nos dias 15 e 16 de março na capital japonesa.
De acordo com Ishi, a partir dos anos 2000, muitos nikkeis brasileiros começaram a deixar de se identificar como trabalhadores temporários ou decasséguis – a forma como ficaram conhecidos no país oriental e no Brasil no começo do processo de imigração para a nação asiática – para se assumir como imigrantes e se estabelecer de forma permanente no país.
Um dos exemplos disso pôde ser observado em março de 2011, quando ocorreu o terremoto seguido de tsunami que provocou o vazamento de reatores nucleares na usina de Fukushima.
Diferentemente do terremoto de Kobe, em 1995, que causou a morte de muitos brasileiros, o desastre de 2011 não registrou nenhuma vítima do Brasil. Mesmo assim, de acordo com Ishi, muitos brasileiros residentes em outras províncias do Japão viajaram rapidamente às regiões afetadas a fim de ajudar os sobreviventes.
“Isso é um dado forte que revela comprometimento e autopercepção dos brasileiros como cidadãos integrantes da sociedade japonesa”, disse Ishi. “Não houve um raciocínio de grupo étnico entre os brasileiros. A questão, para eles, foi de solidariedade entre membros da sociedade japonesa, da qual muitos já se sentem parte.”
De acordo com o pesquisador, o governo japonês, no entanto, já se desencantou há muito tempo com relação à figura do nikkei brasileiro e de outros países sul-americanos como mão de obra ideal. “O Japão tornou-se um país menos simpático à presença do imigrante e tem dados vários sinais relativos a essa mudança de percepção.”
Tratamento diferente
Um desses sinais, de acordo com Ishi, foi a introdução nos aeroportos japoneses de um sistema de coleta das impressões digitais e de registro fotográfico dos estrangeiros, similar ao adotado pelos Estados Unidos.
“À exceção dos coreanos residentes no Japão – que formam o grupo étnico estrangeiro majoritário, com muita influência na sociedade japonesa –, todos os nikkeis, inclusive os brasileiros com visto permanente de residência no país, são obrigados a passar pelo sistema de detecção de terroristas em potencial ou de imigrantes que pretendem se estabelecer ilegalmente no país oriental”, disse Ishi.
Segundo o pesquisador, pela lógica que levou o governo japonês a reformar a lei de imigração de 1990 – segundo a qual o nikkei de qualquer país, por ter raízes com o Japão, tinha o direito de ter o visto facilitado para entrar no país –, todos eles, sem exceção, deveriam ter sido isentados da obrigatoriedade de se submeter ao sistema de detecção. Mas não foi o que ocorreu.
Outra medida polêmica em discussão pelo governo japonês nos últimos anos é a instituição da obrigatoriedade de conhecimento mínimo de língua japonesa como condição para aprovar o visto permanente, sob a alegação de que o estrangeiro residente que não tem o mínimo domínio do idioma nativo gera problemas.
Se a exigência for instituída, na avaliação de Ishi, sociólogo e jornalista que reside há duas décadas no Japão e é colunista do jornal Folha de S.Paulo, mais da metade dos nikkeis no país asiático não passaria no teste de proficiência de japonês.
“Mesmo que essa medida não se concretize em curto prazo, só o fato de ela ser discutida é uma demonstração de que a figura do nikkei como mão de obra para trabalhar no Japão deixou de ser prioridade ou é algo não mais desejável do ponto de vista do governo japonês”, avaliou.
A gota d’água nas relações entre o governo japonês com os nikkeis, segundo o pesquisador, foi o anúncio de um programa para ajudar os imigrantes a retornar aos seus países de origem. O programa forneceria auxílio financeiro para os imigrantes, sob a condição de que não retornassem mais ao Japão.
A medida gerou uma onda de protestos dos imigrantes, que alegaram que era uma retribuição injusta à contribuição dos nikkeis ao país. O governo recuou e anunciou uma revisão na posição em três anos, com possibilidade de autorizar a reentrada no Japão aos descendentes de japoneses com visto permanente que optaram por retornar aos seus países de origem.
O prazo, contudo, expirou em abril de 2012 e não foi permitida a reentrada dos nikkeis que receberam ajuda de retorno voluntário. “Isso fez com que os retornados começassem a pressionar os consulados do Japão em seus países, questionando quando o governo japonês iria se posicionar claramente em relação a isso”, disse Ishi.
Números subestimados
Apesar do endurecimento nas relações entre o Japão e os nikkeis brasileiros, o pesquisador afirmou que o número de brasileiros descendentes de japoneses com visto permanente no país oriental aumentou nos últimos anos. Em 1999, haviam sido concedidos 4.592 vistos permanentes para nikkeis brasileiros. Em 2011, o número (cumulativo) saltara para 119.748.
Além de descendentes japoneses com visto permanente, de acordo com Ishi, atualmente há umboom silencioso de brasileiros com passaporte japonês que não são contabilizados nas estatísticas oficiais do número de brasileiros no Japão.
“Fala-se que há 210 mil brasileiros registrados por nacionalidade no Japão, mas há uma massa invisível de brasileiros que não entraram nessa conta porque já estão com passaporte japonês”, afirmou Ishi. “É preciso que o governo brasileiro mapeie mais a diáspora brasileira tanto no Japão como em outros países.”
Segundo Ishi, o número de brasileiros que residiam no país com visto permanente ou não chegou a aproximadamente 320 mil. O tsunami de março de 2011 provocou a saída de cerca de 10 mil. “Mas o grande tsunami que arrastou muitos brasileiros do Japão para o Brasil já tinha ocorrido com a onda de desemprego de 2008 para 2009”, disse Ishi.
fonte:Agência Fapesp
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Quinze anos
por Tom Coelho
“Há vários motivos para não se amar uma pessoa.
E um só para amá-la.”
(Carlos Drummond de Andrade)
Há uma queixa recorrente e consensual entre as mulheres. Atualmente, está se tornando uma missão quase impossível encontrar um homem que reúna características como cavalheirismo, inteligência e intelectualidade aos atributos de um autêntico Don Juan, tais como masculinidade, sensualidade e beleza física. Tudo o que elas querem é alguém capaz de tirar-lhes o fôlego, surpreendê-las, fazê-las perder a racionalidade, mas que depois as traga de volta ao plano terreno, à objetividade e pragmatismo necessários, sem deixar esvair o encantamento.
Há também um consenso entre os homens. Nos dias de hoje, há mulheres para se “curtir” e mulheres para se namorar – e raramente são as mesmas. A expressão usual assemelha-se a: “Uma garota como essa não se encontra por aí... Cuide bem dela, mantenha este relacionamento. Enquanto isso, aproveite para se divertir com as mulheres erradas”.
Entre um universo e outro, o que os une é a solidão. Mulheres de um lado, homens de outro, compartilhando a vida com amigas e amigos, à espera de serem “tirados para dançar”. Parece que a sociedade moderna nos robotizou, tornou-nos tão mecânicos que perdemos a capacidade de nos apaixonar. E, mais ainda, de amar. Construímos um muro em nosso redor com tijolos de intolerância. Ficamos tão seletivos que terminamos sós.
Amar é olhar para outra pessoa e, mais do que admirá-la, contemplá-la, observando seus traços, feições e movimentos desejando jamais perder este encantamento nem por um milésimo de segundo, negando-se até mesmo a piscar. É ver a imagem da pessoa amada refletida em outdoors, estampada no rosto de personagens da televisão. É ter uma música em comum que marca uma ocasião especial ou que se tornou importante por representar memórias de um momento. Lembro-me de Mário Quintana: “Amar é mudar a alma de casa”.
Amar é dialogar, o que significa falar, mas também saber ouvir. Ter a sensibilidade para perceber quando o outro precisa apenas dizer tudo e de todas as formas, muitas vezes sem a preocupação de que você esteja ouvindo. Basta sua presença. Olhos que sinalizam atenção, silêncio que pronuncia respeito. Acolhimento, conforto, generosidade. Dar como alimento o carinho.
Amar é descoberta. É desvendar sem pressa o passado de quem se gosta, não pela neurose de uma investigação, mas pelo prazer de apreciar aquela história, como quem ouve um pequeno conto infantil ditado pelos pais ao lado da cama.
Amar é tolerância, é concessão. Não significa mudar nem exigir que se mude, mas estar disposto a se adaptar e esperar reciprocidade nessa atitude. Ajustar expectativas, alinhar propósitos. É caminhar lado a lado, olhando unidos na mesma direção, ainda que com visão periférica apurada. Maiakovski pontuou com precisão: “Amar não é aceitar tudo. Aliás, onde tudo é aceito, desconfio que haja falta de amor”.
Amar é transparência, é dizer o que se pensa, sabendo a hora de falar. É não praticar a omissão, achando ser possível empurrar conflitos para debaixo do tapete até que um dia o vento espalhe tudo, maculando o que foi construído. Transparência que gera credibilidade, que leva à confidencialidade, que conduz à lealdade. A lealdade que surge não como um dever, mas como resultado da satisfação do exercício da plenitude, de sentir-se completo.
Amar é tocar. É beijo que acelera o pulso. Sexo com longas preliminares e aconchego posterior. Dormir abraçado, acordar junto. Filme com pipoca, chuva romântica do lado de fora. Cuidar e ser cuidado. Promessas insanas de juras eternas – a eternidade que se perde em um instante. É dividir a liberdade.
Amar é superar adversidades, enfrentar o desafio da geografia que, às vezes, distancia fisicamente dois corações. É sentir a saudade como fruto da partida.
Amar é intensidade, é compreender a impermanência do tempo, sua relatividade. Significa rasgar os estúpidos calendários, quebrar os imponentes relógios e compreender que o tempo tem outra dimensão. É preferível um amor intenso de 48 horas a uma vida insípida compartilhada por uma década.
Amar é se mostrar um grande espelho e permitir que o outro possa mirar-se em você. Ver a si próprio enxergando aquilo que é mais virtuoso, mais nobre. É perceber de maneira perfeita uma pessoa imperfeita. É buscar o equilíbrio, tomar cuidado com a ansiedade, a angústia, a incompreensão e as cobranças. É ter a coragem de também sofrer.
Amar é tudo isso e um pouco mais. Ação que não se descreve, mas que se pratica. Coisas que sabíamos fazer quando adolescentes, aos 15 anos, quando éramos mais intrépidos, menos racionais e, por isso, capazes de sermos mais felizes.
Tom Coelho é educador, conferencista e escritor com artigos publicados em 17 países. É autor de “Somos Maus Amantes – Reflexões sobre carreira, liderança e comportamento” (Flor de Liz, 2011), “Sete Vidas – Lições para construir seu equilíbrio pessoal e profissional” (Saraiva, 2008) e coautor de outras cinco obras. Contatos através do e-mail tomcoelho@tomcoelho.com.br. Visite: www.tomcoelho.com.
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Um fio perdido na pátria
( Eder Roberto Dias )
Estar aqui vendo tamanha violência social diante de algo mentiroso e inerte me desqualifica a dizer o que sente a minha razão. Uma razão que se angústia com a depredação e as feridas abertas por balas de borracha que ferem a carne e não apaziguam a instabilidade de ações que nada apoiam ou condizem ser verdadeiras. A ideologia que movimenta os vinte centavos não demonstra a brutal vida que não se ajeita com a fome, a miséria e os roubos acontecidos diante de uma copa de futebol que se diz do mundo. Um mundo que não mora aqui, que não deveria acontecer ou se quer ser reconhecidas por àqueles que não têm onde morar ou depositar seus corpos cansados de pedir e não encontrar. Hospitais superlotados, professores que são subjugados por uma violência que os proíbem de ensinar e controlar o mal que se estreita entre os jovens que nada sabem e pouco querem!
Mas, querer o quê? Um Neymar que brinca com uma bola e embabaqueçe uma nação de assalariados por um pequeno salário mínimo. Mínimo no poder aquisitivo e, na proporção de direitos, que eles apenas justificam como sendo a base de seus roubos urbanizados: Perdeu meu irmão!
Perdemos nosso tempo votando nos resquícios repetitivos que, nascidos na democracia, morre na falta de liberdade que não temos ou se quer conseguiremos dar aos nossos filhos. Filhos de uma pátria mãe gentil! Gentileza que não há, lideres que não se apresentam e luzes que se acendem através dos tiros que correm de um lado ao outro de um bairro qualquer de nosso pano verde e amarelo. Que poderia ser vermelho pelo sangue que corre nos asfaltos, nas lojas, nas casas assaltadas por subumanos que querem retirar de nosso direito o trabalho que sonhamos e alcançamos. Quando poderemos nos orgulhar? Sentir-nos seguros na terra em que nascemos! Nascemos para morrer pela falta de médicos que realmente queiram salvar vidas... E ajustarem-se ao juramento de servir antes mesmo de pensar em um chegue polpudo que alimente a fome de sua conta bancária. Sei haver exceções! Mais essas exceções morrem também com as mesmas balas perdidas que se perdem em sua trajetória e alcançam os inocentes. Inocentes que apenas queriam chagar em suas casas e contar o quanto difícil é ser brasileiro. Um fio perdido na pátria que se solta quando um projetil fere mortalmente um desejo, uma história que não se completará. Não sabemos se devemos chorar ou nos mudamos para algum lugar que não aconteça tanta violência barata e desmedida. Mas como mudar um país para outros países? Amamos o Brasil, amamos as nossas terras, nossas praias e esperamos poder plantar frutos sociais que elevem o nosso amor em reconhecer que aqui é o nosso lugar. Onde poderemos trabalhar e conquistar nossos sonhos sem que venhamos a correr riscos por termos estudado, buscado e encontrado o que todos podem possam também encontrar.
Sinto por escrever algo que vai à contramão do que espero ter em meu país! Quem sabe aprendamos a valorizar a integração de nosso voto com a eliminação doentia dessa massa ruim de desestabilidade social. Eu acredito no meu povo, na minha gente que brava mudara no poder da sabedoria as movimentações que devem nos levar a uma paz de virtudes e riqueza de igualdades. Onde os poetas possam sentir seus sentimentos e falar de amor, onde os professores possam ensinar e formar jovens que pensem em serem honestos e trabalhadores voltados ao engrandecimento da doce mãe gentil. Por enquanto é uma demagogia que se arrebenta e está esquecida, mas pode ser despertada e arrumada.
Escritor, poeta, palestrante e autor do livro: O amor sempre vence...
Editora Gente.
Blog: erobertodias.blogspot.com.br
E-mail: eder@ederrobertodias.com
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